
Um amor de Primavera
- “Rio de Janeiro é uma bela cidade”, pensou o
estudante de Medicina, nascido em Goiânia, que gostava de andar de calça jeans,
alargada na cintura, o que lhe permitia mostrar uma nesga das cuecas, quase
sempre negras. Camiseta curta ajustada ao tronco sugeria o corpo corretamente
definido. Desta forma provocava os olhares curiosos e excitados das jovens em
flor, em particular as colegas da universidade. Nem feio, nem bonito, valia-se
da inteligência e dons corporais e musicais, para atraí-las. Namorava uma jovem
mais velha, mais experiente, que o mantinha às rédeas curtas, preso
indiscutivelmente aos prazeres da carne.
Como num conto de fadas a princesa surgiu-lhe à
frente, belíssima numa morenice de sol e calor estampado ao olhar. Um olhar
que, ao ensejo de expor malícia, transmitia pudor. Direção oposta, o anjo
fazia-se acompanhar da irmã, uma das colegas de turma. Aproveitou a ocasião e
cumprimentou-as. A Bela e a Fera foram apresentadas. Formaríamos um casal
loucamente romântico e apaixonado pensou depressa o aprendiz de Dom Juan.
Trocaram alguns sorrisos e cada qual foi para o seu lado. “Uma parte de mim
acompanhou-a”, murmurou baixinho, pensamento excitado.
Muitos encontros ocorreram rápidos. Olhares
sibilaram. Mas, naquela noite de primavera rolaria um baile especial. Apanhou o
celular. Convite realizado, finalizou: - “Leva tua irmã. O pessoal gostará de
conhecê-la.” Tudo acertado, sorriu malicioso.
Durante o show dançaram por várias vezes. Quase não
permitiu que os demais se achegassem à sua Cinderela, que também demonstrava
não cobiçar outros braços.
Ah! O amor! O amor! Noite de primavera!
A irmã da Bela despedira-se há tempos e, dizendo-se
cansada, entregara a jovem aos cuidados da Fera. Era a oportunidade desejada.
Não cometeria erro algum, claro que não. Se o fizesse, mereceria a forca.
Respirou fundo, para acalmar os desejos urgentes.
Permaneceram na festa até o final. À saída
caminharam de mãos dadas, abriu-lhe a porta do carro, não sem antes apanhar no
jardim um bouquet de violetas para enfeitar-lhe os cabelos longos cacheados e
brilhantes, que esvoaçaram levemente à brisa da madrugada. À luz dos astros
celestiais os contornos daquele corpo escultural evidenciavam-se mais sob o
vestido justo e curto, azul como os olhos cristalinos. Linda!
Levou-a para casa. Despediu-se e beijou-lhe o rosto
suavemente, a murmurar: - “O luar escurecerá quando desapareceres atrás daquela
porta.” Ao impacto das palavras, não lhe ofereceu tempo para refazer-se: - “E
eu não mais serei o mesmo homem sem o brilho do teu olhar.” A jovem abaixou os
olhos encabulada. Silêncio. Foi então, que o mesmo olhar tímido levantou-se
atrevido, a provocar a língua rosada de encontro aos lábios. Beijaram-se por
muito tempo. Ambos molhados de suor, ao tê-la exaurida nos seus braços, ligou o
carro e fez abrupto retorno. Mãos unidas e trementes, nada disseram. O carro
parou. Planejara tudo. Carregou-a ao colo até a casa toda branca, florida e
perfumada. Com os pés, empurrou a porta da entrada entreaberta. Levou-a
diretamente para o quarto. Pétalas de rosas vermelhas pelo chão. Incenso
afrodisíaco pelo ar. Música suave. Uma cama perfeita. Para a jovem, somente
houve tempo de anunciar: - “Sou virgem.”
Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2010 - 00h04
Fundo musical: Beethoven Silence. Ernesto Cortazar

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz
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