domingo, 2 de agosto de 2009

Meus versos na madrugada fria...



Aquele friozinho gostoso... modorra gostosa... um soninho gostoso, interrompido por um barulho ou um desejo qualquer. Acordada, então, ou "quase acordada", permaneci enrodilhada ao meu edredon de oncinha, vestida num babydoll vermelho, quietinha, a pensar na vida... Os lábios, ainda marcados de ermo baton, mordiscavam de leve o braço esquerdo, a comer o perfume que rescendia do meu corpo, pelo lado do coração... Mas, com aquele frio, enfiada num babydoll?.. Sim, intimidade; o quê fazer? Eu-mulher subjugo o frio com edredon e, se necessário, envolvo-me num cobertor, ou dois, ou três, ou mais. Mas, Eu-fêmea, ainda que seja para entregar-me aos braços de um sonho sem sexo, conquanto sensual, mimoseio-me com lingerie bonita e rendada. Sou assim e não me quero diferente...

Naquele momento, estava só. Algumas palavrinhas poéticas iniciaram uma brincadeira no meu pensamento. Lindas! Inocentes! Soltas! Graciosas! Serelepes! Precisava registrar tamanha beleza! Mas, logo naquele momento? Sairia dali, não. Frio. Muito frio e muita lassidão!
Minha preguiça resmungou, aconchegando-se ainda mais ao edredon: - Ahnnn! Amanhã escreverei este poema...
Uma voz suave, alertou-me: - Amanhã, terás esquecido...
Mas, a preguiça preguiçosa retrucou: - Claro que não! Muito bonito, para esquecer! Amanhã, agora não...
- Lembra-te daquela noite, na estrada? Não me destes ouvidos, preferindo cochilar, preguiçosa, ao balanço do carro. Viste no que deu! Nem do primeiro verso te lembravas mais, quando chegaste ao destino!!! E, castiguei-te, escondendo aquela maravilha!
- Mas está frio... e tenho sono... amanhã...
Reclamei baixinho, com a língua enrolada, a rebolar o corpo mais para o centro da cama.
Impaciente e quase raivosa, a consciência poética (não sei por qual razão, mantinha-se acordada até aquela hora!) vaticinou: - Tudo bem... Talvez percas, mais uma vez, um pedaço de ti, ou, quem sabe... um pedaço de alguém...
Foi o que bastou! Afinal, tanto perdera na vida, por fazer ouvido mouco à minha consciência! Afastei o edredon, devagar... Levantei-me. Pés langorosos arrastados, torpor entorpecido pelo sono... acendi a luz do escritório. Apanhei o primeiro pedaço de papel que vi na minha frente (vi, mesmo?), segurei a caneta lasciva e rabisquei meus versos, que escorreram libertos... Li. Reli aqueles garranchos, rapidamente, porque urgia abraçar a cama. E, reli e gostei e repeti tudo em voz alta. Só mais uma vez... depois iria para a cama... Não é que eu melhorava a cada enlevo? Então, na ânsia incontida de alcançar ouvidos inexistentes, declamei com ardor... e perdi o sono por entre aquele sonho todo...
A madrugada sorridente acolheu-me de braços abertos. Encontrara outra solidão, para dividir a sua. E, ao enlevo do luar, escrevemos muitos versos de amor. Rompemos o dia. Ingressamos no dia. A madrugada, nua. Eu, naquele frio, de babydoll vermelho. O edredon de oncinha? Abandonado, na cama vazia e desfeita.



Cabo Frio, 29 de julho de 2009 - 9h05
Reformulado em 5 de abril de 2010 - 5h23
Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

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